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Porque Pessoas com Demência Repetem Sempre as Mesmas Perguntas

Pessoa idosa com demência a interagir com cuidador num ambiente de apoio

Introdução

Muitas famílias perguntam-se porque pessoas com demência repetem sempre as mesmas perguntas ao longo do dia.

Por Exemplo:

  • “Que horas são?”
  • “Quando vamos almoçar?”
  • “Já ligaste ao meu filho?”

Mesmo depois de receber uma resposta clara, a pergunta volta a surgir poucos minutos depois.

Este comportamento pode ser cansativo para familiares e cuidadores, mas na maioria das vezes não é intencional. Está relacionado com a forma como a demência afeta a memória e o processamento da informação.

Compreender porque isto acontece pode ajudar a lidar com a situação com mais tranquilidade e empatia.

O que acontece à memória na demência

A demência afeta várias áreas do cérebro responsáveis pela memória, atenção e orientação.

Nas fases iniciais da doença, as regiões cerebrais que permitem formar novas memórias são frequentemente as primeiras a ser afetadas. Por isso, a pessoa pode ter dificuldade em recordar conversas recentes ou acontecimentos do próprio dia.

Por outro lado, muitas memórias antigas permanecem mais preservadas, especialmente aquelas que foram reforçadas ao longo da vida através de emoção, repetição e significado pessoal.

Experiências marcantes como viagens, histórias familiares ou momentos importantes tendem a ficar gravadas de forma mais profunda no cérebro.

O poder das memórias autobiográficas

As chamadas memórias autobiográficas, lembranças relacionadas com a própria história de vida, são particularmente resistentes ao declínio cognitivo.

Estas memórias incluem, por exemplo:

  • histórias da infância
  • momentos importantes da juventude
  • viagens marcantes
  • profissões e experiências de trabalho
  • acontecimentos familiares

Mesmo quando a memória recente é afetada, estas lembranças podem continuar acessíveis durante mais tempo.

Recordar estas experiências ajuda a pessoa a manter um sentido de identidade e continuidade na sua história de vida.

Essas emoções positivas podem contribuir para um maior bem-estar emocional.

Porque falar do passado pode trazer bem-estar

Conversar sobre memórias antigas pode ter vários benefícios para pessoas com demência.

Entre eles:

  • reforçar o sentimento de identidade
  • estimular áreas do cérebro ligadas à emoção
  • reduzir ansiedade e agitação
  • promover momentos de ligação com familiares e cuidadores

Quando uma pessoa revive uma memória significativa, não está apenas a recordar um facto. Muitas vezes revive também as emoções associadas a essa experiência.

Essas emoções positivas podem contribuir para um maior bem-estar emocional.

Atividades que podem estimular memórias antigas

Existem várias formas simples de estimular memórias positivas em pessoas com demência.

Algumas estratégias incluem:

  • conversar sobre histórias da infância ou juventude
  • olhar fotografias antigas de família
  • ouvir músicas da juventude
  • recordar viagens e lugares especiais
  • ver vídeos ou imagens de locais conhecidos

Estas atividades fazem parte de uma abordagem conhecida como terapia de reminiscência, amplamente utilizada em cuidados a pessoas com demência.

O papel das experiências imersivas na estimulação da memória

Nos últimos anos, novas abordagens têm vindo a complementar estas estratégias tradicionais.

Uma delas é a utilização de experiências imersivas e sensoriais, que permitem recriar ambientes familiares ou paisagens significativas.

A realidade virtual terapêutica, por exemplo, pode transportar a pessoa para locais que despertam memórias e emoções, como:

  • paisagens naturais
  • cidades conhecidas
  • passeios à beira-mar
  • locais que marcaram a sua história de vida

Estas experiências podem estimular simultaneamente a atenção, a emoção e a memória.

Conclusão

O facto de uma pessoa com demência recordar o passado enquanto esquece o presente não significa que a sua memória tenha desaparecido.

Significa apenas que diferentes tipos de memória são afetados de forma distinta ao longo da progressão da doença.

As memórias antigas, especialmente aquelas ligadas a experiências significativas, podem permanecer acessíveis durante mais tempo.

Estimular essas lembranças através de conversas, fotografias, música ou experiências sensoriais pode ajudar a promover momentos de ligação, identidade e bem-estar emocional.

Porque, mesmo quando a memória muda, a capacidade de sentir e de se emocionar continua presente.

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